A escultura de Bruno Catalano parece flutuar, desafiando a dicotomia entre presença e ausência. Inspira-se, talvez, na jornada humana pelo mundo, sugerindo que durante a caminhada algo fora deixado para trás, como um pedaço de si mesmo que não pôde acompanhá-lo desde seu ponto de partida. Que outros vazios foram criados ao longo do caminho? Memórias, pessoas, língua? Parece-nos que há uma necessidade de movimento que suplanta o próprio desejo em permanecer (Weil, 2001; Najjar, 1997).
Essa reflexão, sobre as lacunas produzidas, revela uma experiência universal, especialmente entre aqueles que se veem obrigados a migrar. Esses são pontos que coadunam com o ser migrante: seja onde estiver, por onde andar, há um tanto que precisou ficar para trás. Entre o que fica e o que o acompanha, o migrante adentra terras estrangeiras em uma odisseia motivada por inúmeras razões. Elas podem ser desde intencionais, como as turísticas, acadêmicas, permeadas pela busca de trabalho e renda, ou por migrações forçadas, em razão de conflitos armados, tráfico de pessoas, perseguições políticas, crises econômicas, climáticas, entre outras (Sá, 2022). Neste cenário, a depender da migração, o sujeito é levado a uma zona abissal, com suas demandas invisibilizadas pelo social e criminalizadas pela ótica do Estado (Di Césare, 2023).
Diante disso, é fundamental compreender as diversas facetas da migração e suas implicações na vida desses sujeitos, pois, independente das motivações que a ensejaram, a migração é um fenômeno complexo e com a capacidade de mobilizar afetos. Pensando nisso, a Pathos lança o chamamento público para o Dossiê: “Migração, Saúde Mental e Direitos Humanos”, com a proposta de reunir trabalhos de pesquisadores, profissionais autônomos e das redes de saúde, educação, justiça e assistência acerca da migração, bem como, convidamos os próprios migrantes a compartilharem seus testemunhos. Serão aceitos artigos inéditos, resenhas, ensaios, relatos da prática, histórias em quadrinhos e demais expressões artísticas, como poesias e letras de música.
Os textos poderão ser encaminhados até 30/04/2025. A previsão para publicação é para setembro/2025. Maiores informações em: www.revistapathos.com.br
Com os melhores cumprimentos,
Os Editores.
Referências
Di Cesare, D. (2020) Estrangeiros residentes: uma filosofia da migração. Belo Horizonte:Âyiné.
Najjar, A.M.S. (1997) Raízes: como sobreviver se a sua seiva? In: Catafesta I. F. M. (org.)A clínica e a pesquisa no final do século: Winnicott e a Universidade. Comemoração do centenário de nascimento de D.W. Winnicott na Universidade de São Paulo. Lemos Editorial. 171-174 pp.
Sá, R L. (2024) Migração e Transculturalidade. Youtube, 24 mai. 2022.< https://youtu.be/ K8gUGqp30Fk>.
Weil, S. (2001) O Enraizamento. São Paulo: EDUSC.